O dilema ético entre o pragmatismo e a integridade na políti
A tensão entre a necessidade de alianças estratégicas e a manutenção de princípios morais define o futuro da gestão pública e o combate ao sistema de privilégio
A tensão entre a necessidade de alianças estratégicas e a manutenção de princípios morais define o futuro da gestão pública e o combate ao sistema de privilégios.
Ao pensarmos na cura de uma patologia grave e sistêmica, a imagem que nos ocorre é a de um centro cirúrgico impecável, onde o médico detém controle total sobre os instrumentos para extirpar o mal sem riscos de contaminação. É o cenário ideal, onde a esterilização garante a segurança do paciente. Contudo, ao transpor essa metáfora para a realidade da política brasileira, percebemos que a intervenção precisa ocorrer em condições adversas, sob intempéries e em um ambiente longe de ser higienizado. Essa é a essência do conflito institucional que enfrentamos: a exigência de pureza moral absoluta pode levar à inação fatal, enquanto o pragmatismo desenfreado corre o risco de infectar o próprio organismo que se pretende salvar.
Essa disputa entre a integridade inegociável e o cálculo político não é apenas um exercício acadêmico; é o fator determinante para saber se um projeto de transformação terá fôlego para perdurar ou se será esquecido como uma nota de rodapé idealista. De um lado, defensores da ética radical sustentam que qualquer concessão ao balcão de negócios corrompe a essência da liderança. Do outro, pragmáticos argumentam que a matemática eleitoral e a governabilidade exigem alianças estratégicas, sob o risco de isolamento político e da entrega do poder a forças desprovidas de qualquer escrúpulo.
Para compreender o desgaste atual, é fundamental analisar as quase quatro décadas transcorridas desde a Constituição de 1988. O Brasil vive um longo ciclo de estagnação que não decorre de falta de capacidade nacional, mas de um sistema desenhado para perpetuar privilégios corporativos. O Estado foi inflado deliberadamente, transformando a política em uma disputa por espólios, onde cada pleito funciona como uma renegociação de fatias de poder, assemelhando-se a um navio pirata em busca de saques.
O erro crasso de muitos líderes é acreditar que podem reformar essa estrutura operando sob as mesmas regras que a criaram. A verdadeira liderança não pode se coligar com a velha política sob o pretexto de governabilidade. Ao ceder ministérios ou pastas estratégicas a grupos que vivem do parasitismo estatal, o governante deixa de ser um agente de mudança e se torna uma engrenagem do fisiologismo, sacrificando o futuro em nome de ganhos imediatos.
Por outro lado, a política não ocorre em um vácuo. Dominar as operações básicas — somar apoios e multiplicar alianças — é um dever de quem assume a responsabilidade de governar. Em um sistema de segundo turno, a escolha é frequentemente binária. Rejeitar qualquer composição em nome de um purismo absoluto pode não ser um ato de heroísmo, mas de vaidade, resultando na entrega total da máquina pública àqueles que não compartilham de nenhum valor republicano.
O perigo reside em reduzir a liderança a um mero cálculo de sobrevivência. Projetos de nação sustentáveis exigem afinidade de valores, não apenas a conveniência do momento. Quando um governo negocia setores estratégicos por apoio parlamentar, ele não está construindo alianças, mas cooptando acionistas que cobrarão dividendos em verbas públicas. O desafio é distinguir o acordo estratégico legítimo da cooptação patrimonialista.
Na prática, a escolha raramente se dá entre o bem absoluto e o mal, mas entre o ruim e o catastrófico. Adversários populistas e autoritários não possuem restrições estéticas e utilizarão todos os meios para alterar as regras do jogo. Se as forças de oposição perderem a capacidade de articular apoios, acabarão por ceder o controle do Estado aos maiores predadores do sistema.
Essa dicotomia impõe um espelho incômodo à nossa vida pública. A fronteira entre o líder que constrói e aquele que apenas incha a máquina estatal é tênue, mas definirá as próximas décadas do país. É necessária maturidade tanto do eleitorado quanto dos governantes para evitar as armadilhas dos fisiológicos e o discurso vazio dos moralistas.
Retornando à metáfora inicial, o Brasil encontra-se no meio da rua, com dificuldades para respirar. Resta a reflexão: o cirurgião que se recusa a sujar as mãos e deixa o paciente morrer é um exemplo de excelência ou de vaidade? E aquele que mergulha na lama conseguirá garantir que seus métodos não causem uma infecção fatal no dia seguinte? O dilema permanece em aberto.
Fonte: midianews.com.br