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De berço do ouro à rota do BRT: Córrego da Prainha enfrenta

O histórico Córrego da Prainha, em Cuiabá, passa por sua quarta intervenção estrutural com as obras do BRT, revisitando séculos de mudanças urbanas e ambientais

O histórico Córrego da Prainha, em Cuiabá, passa por sua quarta intervenção estrutural com as obras do BRT, revisitando séculos de mudanças urbanas e ambientais.

Desde os primórdios do Arraial do Bom Jesus de Cuiabá, o Córrego da Prainha tem sido submetido a constantes intervenções humanas que visam moldar seu curso e propósito. Com o avanço das obras do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT) em direção ao Centro da capital mato-grossense, previsto para 2026, o leito que corre sob a Avenida Tenente-Coronel Duarte torna-se, mais uma vez, o epicentro de uma grande reconfiguração estrutural, a quarta desde o período colonial.

A via, popularmente conhecida como Avenida Prainha, homenageia o militar José Garcia Duarte, veterano da Guerra do Paraguai. Contudo, antes da ocupação portuguesa, o território era habitado por povos indígenas, notadamente a etnia Bororo (Boe). Segundo o historiador Suelme Fernandes, os nativos denominavam o curso d'água de Ikuiebo , que significa “Rio do Chão de Estrelas”, uma referência direta ao ouro que ali encontravam e valorizavam. Naquela época, o córrego era um recurso vital, utilizado para navegação em direção ao Rio Cuiabá e até para a pesca.

A memória de águas límpidas persiste em relatos como o da professora aposentada Cecília Arlene de Moraes, de 70 anos. Ela recorda que, na década de 1960, o córrego passava pelos fundos de sua residência, na região da atual “Ilha da Banana”. Para as crianças da época, o leito era um espaço de lazer onde realizavam a “corrida do ouro”, coletando pequenas pepitas de aluvião entre a areia e o cascalho após as chuvas, guardando-as em frascos de remédio como forma de brincadeira.

Geograficamente, a Prainha é o marco do nascimento da cidade. Foi ali que, em 1719, dois nativos teriam entregue pepitas de ouro ao bandeirante Miguel Sutil, dando início à febre aurífera que fundou o Arraial. Com a consolidação do povoamento europeu, o córrego passou a sofrer com o descarte de resíduos e dejetos, processo que se agravou no século 19, resultando em assoreamento e problemas de saneamento.

Após a Proclamação da República, o poder público passou a enxergar o curso d'água como um obstáculo, devido aos constantes alagamentos que afetavam a região. O historiador Suelme Fernandes ressalta que, embora intervenções de drenagem tenham ocorrido ao longo de décadas, a área permanece sujeita a inundações. Ele defende que, sob uma ótica científica moderna, o entorno da Prainha deveria ser classificado como Área de Preservação Permanente (APP), pois a ocupação urbana ignora a dinâmica natural do córrego.

Na década de 1960, com a expansão de Cuiabá como polo de apoio à integração nacional, a canalização do córrego foi adotada como medida urbanística. A professora Doriane Azevedo, especialista em desenvolvimento urbano, avalia que essa intervenção refletiu a mentalidade de dominação da natureza predominante na época. Segundo ela, a água possui memória e, ao ser contida artificialmente, busca seu caminho original, o que explica a recorrência dos transbordamentos anuais.

Entre 1975 e 1979, o córrego foi totalmente coberto durante as gestões dos prefeitos Rodrigues Palma e Gustavo Arruda, visando ampliar o tráfego e evitar acidentes. Já na década de 1990, sob a administração de Roberto França, a Avenida Tenente-Coronel Duarte foi novamente alargada, eliminando rotatórias e consolidando o cenário atual.

O projeto do BRT prevê agora uma nova fase de intervenções, incluindo a readequação geométrica das pistas, a reconstrução de calçadas e o reforço no sistema de drenagem. O plano contempla a criação de estações estratégicas, como a Dom Bosco, a Bispo Dom José e o complexo Morro da Luz, este último projetado para atender a uma alta demanda de passageiros com abrigos para ônibus articulados.

Devido à estrutura do córrego canalizado, o canteiro central não suportará escavações profundas ou árvores de grande porte. A solução técnica proposta envolve jardineiras elevadas com espécies nativas do Cerrado e a implementação de “jardins de chuva”. Essas estruturas de biorretenção visam filtrar a água da chuva e aliviar a carga sobre a rede pluvial subterrânea, tentando mitigar os problemas históricos de alagamento na região.

Além das mudanças viárias, o projeto prevê a padronização das calçadas com piso tátil e a substituição da iluminação por estruturas mais eficientes, voltadas ao conforto dos pedestres. Embora o anteprojeto detalhe essas diretrizes, a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra-MT) não confirmou se todos os pontos foram mantidos na execução final da obra. Fonte: rdnews.com.br